Agência de Modelos

Atualizado: 9 de ago. de 2020

Você posta uma foto bonita, coloca a hashtag certa e “plim”, pipoca um caça talentos interessado em você. Quem já passou por isso? Ele ou ela te faz um convite para ir até a agência deles, pois, o seu perfil é o que eles estão buscando. Eu já passei muito por esse tipo de situação, o bastante para saber que 99% destas propostas são uma grande furada. Ainda assim, resolvi dar uma chance. Não tinha nada melhor para fazer, por que não ir? Combinamos para o dia seguinte.


Fui convidada por uma moça chamada Talita para ir numa agência chamada Concept, localizada na Vila Prudente – e como eles mesmos especificaram – a 5 minutos do metrô. Quando cheguei no local, bateu o arrependimento na mesma hora! Aquele estabelecimento não parecia – nem de longe – com uma agência de modelos.



Geralmente as agências de modelos possuem uma estrutura bonita, moderna, imagens de moda espalhadas pelas paredes, música ambiente como trilha de fundo, enfim, aquele cenário agradável, como se fosse uma fábrica de sonhos. Essa em questão era o total oposto disso. Paredes brancas, uma entrada extremamente pequena e estranha, dentro havia apenas dois sofás e o balcão da recepção. Não havia nem filtro de água ou álcool em gel, disponibilizado para seus visitantes. Sabe aquela música ambiente e agradável que citei logo acima? Desta agência era altíssima, tão alta que atrapalhava você ouvir o que a outra pessoa estava dizendo. E o pior, não eram músicas legais, pelo contrário, umas nacionais totalmente estranhas, que eu nunca tinha ouvido na minha vida. Ainda bem que eu estava de máscara, assim disfarçava a minha cara de decepção.


Me direcionei à recepcionista, que estava atendendo uma outra pessoa, e me surpreendi que ambos – nem ela, nem o cara que ela estava falando – não usassem máscara. Em plena pandemia, com um aviso gigante na parede falando sobre o uso obrigatório da máscara, a recepcionista estava lá, com o seu batom vermelho gritante, pouco se importando com a inexistente máscara que deveria estar em seu rosto. Pensei em dar uma alfinetada, do tipo: “Pra que aquele aviso se você não o segue?”, mas resolvi ficar na minha. Desde o momento em que pisei ali não me senti confortável naquele lugar e não seria sensato provocar seus frequentadores.


A recepcionista também não era nenhum poço de simpatia. Duas vezes fui interrompida enquanto tentava me direcionar a ela. Quando eu começava a falar, ao mesmo tempo ela falava mais alto, se direcionando ao cara que estava na sua frente. A minha má impressão só aumentava.


Quando enfim consegui captar a sua atenção, ela me deu uma ficha para que eu preenchesse. Após o seu preenchimento, pediu que eu aguardasse. Dali uns cinco minutos, me chamou e me levou até o andar de cima, deixando a recepção completamente abandonada. O andar de cima era tão feio e estranho quanto o de baixo. Não possuía nada que remetesse a moda, decoração, enfeites, nada! Me fazendo sentir um desconforto ainda maior por estar ali. Fui levada para uma sala onde havia dois homens gays e uma mulher com um vestido estampado, de péssimo gosto, segurando uma câmera. Confesso que quando vi os dois gays me senti um pouco melhor, afinal, no mundo da moda é muito comum e por um instante me senti mais segura na presença deles.



A mulher que tirou as minhas fotos não tinha a menor pinta de fotógrafa. Me indicou duas poses e então disse que já tinha terminado. Pediu que eu aguardasse do lado de fora da sala, que outra pessoa viria falar comigo. Segundo eles, todo esse processo foi um teste de fotogenia e enquanto aguardassem a resposta da marca contratante, eu seria entrevistada por outra pessoa. Nesse meio tempo em que eu aguardava ser chamada, chegou um casal com uma criança, todos sem máscara. Parecia que eu estava num mundo paralelo em que só eu sabia da existência da Covid-19.


Enfim fui chamada e me levaram para outra sala. O entrevistador era um homem todo sorridente e simpático. Perguntou das minhas experiências como modelo, atriz e então pediu licença, dizendo que ia buscar o resultado do meu teste de fotogenia. Voltou com outro rapaz igualmente simpático e foram dizendo o meu percentual de avaliação, considerando os critérios: carisma, timidez, postura, aparência e etc. Tive uma pontuação boa, somando tudo 93%, a melhor do dia, segundo eles, e então entramos no assunto dos trabalhos que eu poderia ter se me agenciasse naquela agência.



Devo dizer, para você que quer ser modelo, que este é momento mais crucial da entrevista. Fiquei uns trinta minutos dentro daquela sala, com o entrevistador tentando fazer uma lavagem cerebral em mim, criando todo um cenário de sucesso na minha cabeça para que, ao final, quando me enfiasse a faca com o valor do book, eu não me sentisse tão impactada, após ter ouvido toda aquela projeção de trabalhos bem sucedidos que eu teria dentro da agência.


Segundo ele, eu já tinha sido aprovada para fazer um job fotográfico naquele mesmo dia, para uma marca chamada Blackout e faria mais dois testes dia 18/08 para as marcas TNG e G10Store, tendo em vista que o meu perfil era exatamente o que estas marcas estavam buscando. Mas para que tudo isso fosse possível, eles precisariam me agenciar primeiro. E como isso seria possível? Com o investimento do book, já que eu não possuía nenhum material fotográfico profissional.


Agora entramos numa questão muito interessante. No início da entrevista, ele havia dito que eu poderia fazer meu material fotográfico com eles ou fora da agência que daria na mesma. Contudo, à essa altura da conversa, eu só poderia fazer com eles, pois não conseguiriam me encaixar em qualquer job se eu não fechasse o book naquele momento. Caindo em contradição com o que havia me dito alguns minutos antes.


Outra questão muito importante: ele ressaltou que o investimento do book é dividido entre ambas as partes, ou seja, eu arcaria com 40% do valor, enquanto a agência 60%. Tá aí uma coisa positiva, pois, em todas as agências que já fui ao longo da vida, tal investimento era totalmente por conta do modelo.



Mas essa positividade desabou completamente quando ele disse que o meu custo seria de doze parcelas de R$ 208. Na mesma hora peguei meu celular e multipliquei esse valor por doze. R$ 2.496! ele estava doido?! Não tinha o menor cabimento o valor ser este, considerando que já estivesse sendo abatido 60% da agência.


Questionei isso com ele, afinal, como um book poderia ser tão caro, se o meu investimento seria apenas 40%? Nenhum book custa esse valor exorbitante. Daí ele tentou me convencer partindo para outra estratégia, dizendo que neste valor já estava incluso as fotos, o agenciamento, os cursos de passarela, teatro e tv, que eles forneciam. Ele tentava, desesperadamente, agregar maior importância ao produto, quando, na verdade, eu só estava interessada nas fotos e não nesse combo que ele insistia em me vender, dizendo ser benefícios da agência, quando tais serviços adicionais já estavam embutidos no valor total.


Novamente o questionei (coisa de jornalista investigativa, rs), que então o que a princípio ele dizia estar incluso no agenciamento, na verdade estava sendo cobrado junto com o book. Ele desconversou e tentou dar foco para o investimento que a agência fazia nesses cursos, como se pagassem mais do que repassavam aos modelos. Lamentável.

Como sua última cartada, ele disse que eu poderia abater o meu job daquele dia (da tal marca Blackout que eu já tinha sido aprovada) no book. Ou seja, o que eu receberia daquele trabalho fotográfico (segundo ele, mil reais) poderia abater no investimento do agenciamento e ficaria o restante em doze parcelas de R$ 125 (totalizando R$ 1.500). O que me fez pensar que na verdade o valor do book era justamente esse, mas que criou toda aquela história de job e abatimento para parecer que o valor final tinha ficado menor.


Ainda assim, um investimento muito alto para uma agência como aquela, que não passava a menor credibilidade. O que eles ofereciam para cobrar tudo isso? Uma estrutura decadente? Parceria com marcas pouco conhecidas (com exceção da TNG, se é que aquele teste era mesmo real), um nome que nem era conhecido no mercado? Uma localização ruim? Já fui em agências muito maiores e melhores em que o valor do book não chegava nem perto dessa quantia, apesar de achar que o investimento é caro demais em qualquer agência.


Enfim, se você que estiver lendo isso possui o sonho de ser modelo ou tem como objetivo que seus filhos sejam, tenha muito cuidado com as agências que você vai e não acredite em tudo que lhe disserem. Como dica final: fujam principalmente desta agência em questão.


Dica de leitura: 7 dicas incríveis para você conseguir trabalho de modelo


Até a próxima postagem!

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